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terça-feira, 30 de março de 2010

Privilégio de Pupila

Faz um tempo que não passo aqui. E voltei para postar um texto do meu mestre, que inocentemente pediu uma revisão. O diabo do texto é tão bom que merece que eu passe por cima de preconceitos "bloguistícos" do seu autor.

Foi mal Mr.!



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Morri.

Fui dormir e acordei num salão amplo, chão com fumaça de gelo seco, bem como o imaginário define o céu ou algo que o valha.

Havia um senhor com roupas longas e ar de poucos amigos, sentado numa grande cadeira. Aproximei-me ressabiado.

- Deus? – Eu, num fio de voz.

- Não! São Pedro! Não sabes que não podes ver a face do Senhor?! - Trovejou o velho, me fazendo arrepiar até os cabelos do toba.

- Que houve comigo?

- Não podes deduzir? Tu que te orgulhas tanto da capacidade dedutiva? – troou novamente e comecei a não gostar do rumo da prosa...

- É... parece que eu morri, mas o que é que eu estou fazendo aqui no céu?

- Aqui não é o céu, é o limbo. Aqui as almas são julgadas e destinadas ao gozo ou aos suplícios eternos!

- Gozo eterno!? - Perguntei animado.

- Referia-me à paz celeste! – Gritou e inclinou-se pra frente, fazendo menção de levantar da cadeira, pensei até ter visto um raio em sua mão direita...

- Ok, calma... Então isso aqui é um julgamento?

- Tu, que eras ateu, não esperavas ser julgado após a morte?

- Pra ser sincero não, e eu não sou ateu, sou agnóstico... O ateu acha que pode provar a inexistência de Deus e é na verdade um religioso às avessas. O agnóstico acha que tem coisa mais importante pra resolver na terra... Não sei se o Senhor e seu Chefe repararam, mas o bicho tá pegando lá embaixo seu São Pedro... Tem criança com câncer, tem o pessoal na África e tem...

- Chega!!! – Gritou, e fiquei achando que os trovões que ouvimos da terra são esporros celestiais.

- Tá bom, calma seu São Pedro...

- Tu leste tantos filósofos e não aprendeste nada!

- Nem todos falam bem do seu Chefe, o senhor sabe o que Nietzsche fez com ele não sabe?

- Nietzsche arde no fogo do inferno!!!

- Não diga...

- Esta tua ironia não ajuda o teu julgamento. Tu leste Pascal, ele fala da necessidade da aposta. Já que a razão não é capaz de determinar se Deus existe ou não...

- Seu são Pedro, dá licença, eu li “pensamentos” também... Se você aposta que Ele existe e Ele não existir, nada acontece. Se você aposta que Ele não existe e ele existir “cairá eternamente nas mãos de um deus hostil” ou seja, tá fudido...

- Olhe o linguajar, repreende tua língua! – Agora vi nitidamente um tenebroso raio na sua mão direita.

- Desculpa seu são Pedro, calma, Lapsus linguae! – Falei temendo morrer novamente – é que não fiz aposta nenhuma, só procurei ser leal e seguir meus princípios... Sem falar que Pascal morreu donzelo aos 39 anos... Até o Senhor deve achar isso esquisito.

- É bom que saibas que todo filósofo foi condenado aqui. Serás julgado pelos dez mandamentos do Senhor.

- Olha seu São Pedro, com relação à mulher daquele cara, o Senhor deve ter visto, não tinha como liberar e...

- Silêncio! Eu conduzo o julgamento! Primeiro mandamento: “amarás Deus sobre todas as coisas”. Algo em sua defesa?

- Não senhor seu São Pedro – Na verdade eu tinha, mas pensei que aquele raio devia doer até em gente morta...

- Condenado! Segundo mandamento: “Não tomar seu santo nome em vão”. Algo em sua defesa?

- Desse aí to liberado seu São Pedro, o senhor bem sabe que eu digeria minhas angústias com filosofia, Skol gelada e Caribé... Não botava Deus no bolo...

- Absolvido com ressalvas! Terceiro mandamento: “ Guardar os Domingos e Festas de Guarda”. Algo em sua defesa?

- Ôxi seu São Pedro, nesse aí eu tô de boa... eu só não, a Bahia inteira...todo domingo e dia Santo é um reggae retado e...

- Condenado com agravantes!!! Quarto mandamento: “Honrar pai e mãe”. Algo em sua defesa?

- É, tenho honrado meu pai, mas só pude honrar minha mãe por 18 anos seu São Pedro, ela morreu sabe? Na época eu era crente, me lembro que rezei pra caramba, mas acho que a conexão tava lenta... ou vocês estavam ocupados, sei lá...devia ter passado um fax...

- Chega! Absolvido! Já te adverti quanto às suas ironias! Quinto mandamento: ”Não matarás”

- Vontade não conta né? Então tranqüilo.

- Absolvido. Sexto mandamento: “Não pecarás contra a castidade” algo em sua defesa? - Nesse vi no seu rosto e na inflexão da voz uma grande dose de ironia...

- Olhe seu São Pedro, nesse caso específico eu queria alegar exceção de incompetência já que os delitos se deram lá embaixo e as cúmplices ainda estão vivas e...

- Tu és advogado?

- Não Senhor - falei humilhado - é que tenho muitos amigos advogados e...

- Saiba que todos os advogados vão direto pro inferno sem julgamento!!!

- Eu sei, eu até concordo mas é que....

- Condenado com sérios agravantes!! Sétimo mandamento: “Não roubarás”. Algo em sua defesa?

- As carambolas e aquele galo na roça de Seu Izidoro não conta não né?

- Absolvido com ressalvas. Oitavo mandamento: “Não levantar falso testemunho” Algo em sua defesa?

- Olha seu São Pedro, eu vou arriscar, pra mim todo metrossexual é pederasta...

- Condenado com agravante de preconceito!! – Oitavo mandam...

- Seu São Pedro dá licença? – atalhei fugindo da certíssima condenação no mandamento seguinte – Filósofo vai pro inferno, advogado vai pro inferno... Qual a atividade com maior índice de absolvição?

- Ahhh... tem os políticos! – Falou, com cinismo celestial.

- Como é rapaz?!

- É que eles têm foro privilegiado aqui e depois de uma vida de abnegada dedicação ao povo eles...

- Ói seu São Pedro, vida abnegada é o cacete! Você vá tomar no olho do seu...

O raio me pegou pela banda da cara... foi uma dor lancinante, caí para trás com os braços esticados.

Acordei molhado de suor, o coração na boca, os dedos numa posição obscena... e mais agnóstico do que nunca...


Nairson L.Santos.

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Tsc tsc... Ah se sua sogra vê um negócio desse, neguinho...

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Contos de buzú


Iniciando - oficialmente - a série "Contos de Buzú", vou escrever um texto novinho. Gosto de chama-lo de Chuva vista por... que abrange o ponto de vista de cada um sobre a chuva atual.
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Chuva vista por... Bisa.

Nunca gostei de sair na chuva. Eu sempre gostei da sensação de aconchego que ela tras, você em casa assistindo filme, tomando chocolate quente arragada em alguém e debaixo de um edredom macio. Aquela velha cena clichê. Que delícia!

Hoje eu gosto de sair na chuva, dá para imaginar centenas de motivos que a fazem existir - incluindo aqueles obvios que a gente aprende na aula de ciências: a água evapora, vira nuvem, cai a chuva e a água evapora, vira nuvem, cai a chuva... - como se ela fosse um ser pensante. Coisa de doido? Acho que não... Daí, no ônibus, num desses dias de chuva que deixam minha cidade em frangalhos, comecei a pensar na origem da chuva. E na personalidade da chuva.

Na mitologia maia, por exemplo, o deus da chuva, relampagos e trovões é o Chaac. Ele é o cara que controla tudo, e os maias rezavam pra ele antes da colheita. Quando a gente ouve assim essa história de deus, imagina logo uma figura humanóide. Eu não imagino a chuva como um deus ou uma figura humana. Na verdade a chuva antigamente era um cara legal, tranquilão e refrescante, que vinha lavar a terra em tempos esporádicos (o que hoje chamamos estações do ano). Suas caracteristicas principais era a de ser bem galante e ser chamado com frequencia pelas pessoas. Como ainda era muito jovem, deu um vacilo no diluvio, mas apesar disso ele continuou muito querido. Ele está sempre em vários lugares ao mesmo tempo e muda de estado como quem muda de penteado.

Um cara legal.

Um cara legal que acabou ficando estressado. Afinal de contas ninguém fica legal e relax pra sempre. O mundo mudou e Seu Chuva ficou um pouco mais velho. Mais susceptível a mudanças de temperamento. Na verdade ele ficou é bem ranzinza. Ranzinza bagarai. Pelo menos é o que o mundo acha - o Brasil, inclusive - que aconteceu de uns anos pra cá. Mas não é bem assim não. Na verdade o Seu Chuva não é um cara ranzinza, é um cara persipcaz.

Afinal de contas a função dele, além de regar lavouras, é limpar a terra. E a nossa terra tá é bem suginha. Daí ele resolveu resolver. E tá tentando até hoje. Enchendo alguns rios, alagando algumas casas, criando umas ondinhas...

Eu até gosto da chuva, mas acho que ele anda meio rebelde esses dias. E tenho dito!

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Esse escrito foi feito pela Bisa, que mora na cidade, tem um carro que polui o meio ambiente e tem a mania insistente de julgar os outros. Breve veremos a chuva na visão da Sá Melita, que mora na roça e é uma das pessoas que chamam a chuva e ela não vem.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Ócio

"Durmo e acordo sem me mexer. Minha cabeça tem um zumbido estranho. Meu coração não pára de doer. Estou morrendo."
"Calma, a morte ainda não o alcançou, você só está ocioso."
"Ocioso!? Seu médico xinfim! Profissionalzinho de araque. Filadaputa!!! Como eu pago uma consulta cara dessas pra você, seu bunda suja, me dizer que eu tô ocioso!? Eu trabalho naquele escritório seboso todo dia, me torturo pra pagar as contas do mês, e você me diz que eu tô ocioso... Diz pra mim onde cê comprou seu diploma, que eu quero um pra mim também."
"O senhor faz alguma atividade física prazerosa?"
"Não tenho tempo pra isso..."
"O senhor escreve? Exercita a sua criatividade?"
"Meu primeiro exercício criativo foi achar que o senhor ia me ajudar com o meu problema, doutor..."
"Vou lhe indicar um psicossomático leve e te dar o numero de um psicologo amigo meu."
"Qual é!? Virei maluco foi? Caralho, agora que eu vou virar médico mesmo."
"Senhor, de acordo com meu diagnostico visual, o seu problema é psicológico."

(...)

É chato quando alguém te interrompe quando você está escrevendo né!? Quem escreve sabe... Demora horas, dias, semanas (no meu caso) pra você chegar num ponto inspirado, e quando você o atinge, chega o cara que vai instalar a linha telefonica, ou o telefone toca, ou você fica com vontade de ir no banheiro... Isso quebra a criatividade. E eu preciso escrever. Se eu quiser ser um escritor e ganhar para fazê-lo, eu preciso escrever. E, infelizmente, eu não tô conseguindo.
Fiz um livro. Foi bom, tive de fazer mais tiragens. Me encomendaram outro. Fiz. "Superou expectativas", dizia a crítica. Agora tô empacado no terceiro. Aqui, com toda a facilidade do mundo, alcool e nicotina a mão, não sai nada que valha a pena. Mas também, nesse mundo de merda, quem é que vai ler o que eu tô afim de escrever!? Eu quero falar do jeito que todo mundo vai morrer daqui a 50 anos, do jeito que a Terra vai cagar a gente e como a gente vai descer ladrina abaixo no espaço sideral! Mas quem quer saber de morte!? Todo mundo só quer saber de vida, a linda vida que aparece nas telenovelas: típicas de quadrados semióticos.
Na verdade, quem inventou o quadrado semiótico (acho que foi o Greimas) é um belo de um filadaputa. É verdade, só pra facilitar a vida desses escritoreszinhos de merda, que colocam amor e ódio em cada ponta do quadrado e nem se importam com o enredo. Se for para escolher odiar alguma coisa, eu escolheria a novela. Depois escolheria os que assistem a novelas. Depois os que as escrevem. Na verdade, eu até entendo os pobres dos caras que as escrevem, afinal, eu sou como um deles. Aposto que eles começaram como eu, cheios de esperanças e sonhos, querendo levar informação para o mundo. Mas o ser humano é bicho burro retado...
O trecho do livro que eu tô tentando escrever tá aí em cima. Aconteceu mesmo. Eu fui no médico, mas não o xinguei. Sou um cara polite, mas que deu vontade deu. Depois é que eu descobri que ociosidade é uma doença séria pra um cara que vive da criatividade. Ai eu fico assim, falando sozinho... Coisa de maluco.

(Ele senta em frente ao computador com um copo de conhaque na mão e um chiclete de nicotina entre os dedos. Olha pra tela. Bebe o líquido do copo dramaticamente e manda o mundo se foder.
-Foda-se o mundo!!
Coloca mais conhaque no copo, joga o chiclete sem mascar no lixo, pega um cigarro na gaveta, acende, dá uma tragada-suspiro histórica e vai assistir tv no sofá, onde acaba dormindo.)
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Ps.: a coisa do cara da linha telefônica aconteceu mesmo. O resto não, rs...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Andressa.

Ela chorava. O policial a olhava sem nenhuma clemência. Ela gostava de repetir as mesmas coisas, era irritante. Ele a olhava com a certeza da culpa.
- o que você fazia naquele beco?
- eu já disse senhor policial, eu ia fazer um programa.
- a senhorita disse que tinha feito um programa.
- mas eu sou virgem, pode me examinar.
Ela olhava maliciosamente pra ele enquanto abria as pernas. Ele olhou para ela. Era uma moça bonita para uma prostituta e tinha duas semanas que ele não brincava, precisava realmente tirar o atraso. Ele sabia que não podia brincar com aquela prostituta, ela era suspeita de um assassinato.
- vem me examinar senhor policial, ela dizia tirando a calcinha.
Ele deu a volta, abriu a porta, conferiu que a vizinhança estava ausente e a olhou de novo. Viu que sua boceta estava molhada, apetitosa.
- sabe, eu estava pronta pra fazer sexo naquele beco, não me leve a mal, eu não ia fazer por dinheiro. Certas coisas deviam ser de graça, mas eu preciso comer...
- é, eu também preciso comer, ele dizia se aproximando. Estava próximo a uma ereção, sofria com a precocidade, mas odiava a idéia de ir a um medico... Era um tipo de homem antigo.
Caminhou até ela, tirou as calças, ela lhe fez um boquete. Após cinco minutos ele havia gozado e ela fez um comentário infeliz.
- já!?
Isso abateu o policial Peixoto. Um homem que se achava viril, garanhão e sedutor não devia ser julgado por uma prostituta que se dizia virgem. Como é que ela era virgem?
- deixa eu ver esse cabaço ai..., disse, e ela obedientemente abriu-lhe as pernas. Era uma boceta bonita, no que competia em matéria de bocetas. E ela não mentia, realmente havia um cabaço lá...
- esperando o homem certo?
- é... acho que não existe. Tenho 21 anos e não o encontrei.
- e porque ME ofereceu?
- ah, sei lá...
- hum...
- e então? Não quer?
- hum...
- se não me quer deixa logo eu ir pra casa...
- quero sim, claro. Mas acho que devíamos fazer isso direito. Veste a roupa, vamos até o almoxarifado, tem um sofá lá.
O almoxarifado ficava no subsolo da delegacia e aquele sofá era usado pelos policiais para casos especiais como esse...
- sinta-se a vontade Andressa, disse o Peixoto.
Ela começou a fazer um strip-tease e ele a observava. Começou a olhá-la não como homem, mas como policial. Via que ela era experiente demais para uma mulher virgem. Mas depois de um tempo ele só pensava em tocar aqueles seios que pareciam tão macios, aquelas pernas tão torneadas, aquele traseiro tão redondo, e pensava que não fazia sexo há duas semanas, pensava que não tinha camisinha... Mas o que fazer? Fazer!
Ele jogou-se nela e começaram os movimentos de fornicação. Uma maravilha!
Acabaram (ele conseguiu segurar o gozo durante 7 minutos.), e ela disse:
- venha me examinar, senhor policial, diz Andressa abrindo as pernas.
Ele foi até ela e depois do exame viu que o hímen ainda estava lá... Fascinante... Frustrante...
- o senhor não imagina quanto dinheiro eu ganho com isso, a natureza me abençoou...
- hummm...
- e então? Gostou de transar com uma virgem?
- quer dizer que você realmente estava fazendo um programa naquele beco.
- achei que tivéssemos esquecido esse assunto...
- heim?
- é... tava...
- com o sr. Ramirez?
- não sei o nome dele.
Ela adquiria um aspecto choroso.
- nem comece a chorar.
Ela parou com o teatro e disse:
- o senhor não entende. Aquele não um cliente, era meu cafetão. Era um monstro. Me fazia trabalhar o dia inteiro, por eu ser a peça mais valiosa, e sempre com homens diferentes para sustentar a história da virgem. Eu sei, daquele pardieiro lá eu sou a mais bonita e procurada pelos caras, mas não dá o direito de meu cafetão me comer e fazer com que me comam todo dia! No começo da minha carreira eu até imaginei que viraria uma espécie de “produtora” das meninas por eu ser a favorita, mas...
Peixoto a interrompe: - com quantos anos você começou?
- dezessete, mas continuando, ao invés de ele me transformar na rainha, me transformou na pior das fodidas. Se meu hímen não se rompesse eu diria que tava bem lascada, hahaha...
- continue...
- se eu continuar você promete que cuida de mim, policial Peixoto?
- prometo. Continue...
- pois é, só que ontem ele não tinha aparecido pra me ver. Ele foi ver algum cliente que gostou muito de mim, e queria me comprar dele. Acho que deve ter sido um dinheiro bem alto, porque o sacana ia me vender! Daí, quando eu estava andando pelo beco ele apareceu. Eu disse que tava com saudade e tal, e ele me disse toda a história do cliente que tinha gostado de mim. Eu não gostei e mandei ele se foder... Só que ele disse que ia me foder, e ia me vender sem meu atributo! Ta entendendo seu Peixoto? Ele pegou um pedaço de pau e queria enfiar em mim! Eu não podia deixar ele destruir meu material de trabalho... Tive que matar ele... Mas não conta pra ninguém, tô confiando no senhor...
- e você diria isso num tribunal? Que foi legitima defesa?
- claro!
- hum... Mas eu tô pensando aqui... Acho que essa baboseira de legitima defesa demora muito. Vamos tentar algo mais prático.
- adoro praticidade, diz a Andressa, enquanto o Peixoto levanta do sofá e vai caminhando nu até a mesa.
- sabe policial, olhando assim pro senhor de costas, você não me é estranho...
- é! Eu nem acredito que ofereci oito mil reais por você, sua vaca!, ele disse antes de atirar no meio da testa dela... Vestiu-se, deu-lhe um beijo na boca e começou a enrolar seu corpo num saco plástico preto. Subiu a escada carregando-a nos ombros, cantarolando “Age of Acquarius” e no pensando que tinha muita brincadeira pela frente antes da desova...

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A morte da galinha

Foi em agosto. Me lembro como se fosse ontem. A família toda reunida lá na casa de vó, coisa que acontecia sempre... Agente sempre ia pra lá nos fins de semana, fazer uma reunião de família com churrasco e cerveja no quintal. Mas nesse mês de agosto não foi como os outros... Explico por que.

Uns seis meses antes meu vô trouxe do interior uma ninhada de pintinhos. Uns pintinhos lindinhos, fofinhos e amarelinhos. Mas tinha um que era cinza, feio que doía, e eu resolvi pegar pra criar. Sei lá, eu tenho um instinto maternal feroz e fiquei feito besta com a cara do bichinho. Passei a chamá-lo de Rôni, mas depois de um tempo descobri que era fêmea, e daí virou Rônia. Eu era uma criança, vai entender... O que eu quero realmente mostrar pra vocês é que eu amava aquela galinha: conversava com ela, brincava e até dividia meu almoço com ela... Nós éramos muito amigas.

Mas eu tive que mudar de casa. Fui morar num apartamento, e não aceitavam galinhas lá. Sintam só a minha dor! Fiquei pensando nela, a pobrezinha deve ter morrido sem minha presença. Então, era de se esperar que na primeira oportunidade eu tive que ir lá pra ver a minha amiga. A oportunidade apareceu depois de um mês... Um longo e desesperado mês! Mas vóinha me ligou chamando pra comer lá no fim de semana, e eu que não sou besta, pensei em ir ver a bichinha e comer a comida de vó, que não se recusa.

Cheguei, cumprimentei todo mundo e perguntei pra minha vó onde que tava minha galinha. E ela me respondeu sorrindo: -aqui!, indicando uma panela fumegante de galinha. Rapaz, eu entrei em desespero! Como que ela podia fazer isso? Comer um bicho de estimação, que coisa nojenta! E o pior foi ela tentando se justificar, dizendo que a Rônia tava muito velha, que tinha que comer logo pra a carne não ficar dura, e que a Rônia não era choca!! Ahh, só porque a pobrezinha não era fértil, que maldade... Duvido que ela ia gostar se eu a matasse pra comer, já que a pobre tava ficando caduca. Bom, eu admito, quase vomitei na hora, mas tive que comer minha amiga porque tempero de vó não se recusa.

Eu só sei que depois dessa desventura eu só vou criar cachorro, que depois de velho ninguém mata pra comer.