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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Premeditação

Acabei de escrever. Desfrute. Frua. Fique a vontade.

--

Você sabia o efeito que aquele cabelo ia causar

E não se importava.

E o jeito que o seu vestido tinha-lhe aderido ao corpo

Não a intimidava.

O que os outros lhe diziam de jeito algum a incomodava.


O jeito que seu olhar fumegava, em condensa brasa,

me machucava.

E o pior, o pior de tudo,

É que tudo você premeditava.


Lamurias não lhe chamavam atenção,

Passavam-lhe ignoradas.

E o jeito que o espelho reluzia seu corpo nu

Me orgulhava.

Não importava o tipo de sapato, a cor da bolsa que usava,

Ela sempre se achava radiante, iluminada.


O jeito que ela andava, gesticulava, falava cada palavra

Me machucava.

Mas o pior, o pior de tudo,

É que tudo ela premeditava.


--

Hihihi!!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Eu, etiqueta




Homenageando meu curso preferido (espero que tenham sentido um sarcásmo latente).

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados aos meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-lo por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer, principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar,
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante, mas objeto
Que se oferece como signo de outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que o meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.



(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Os dois lados

Deste lado tem meu corpo
Tem o sonho
Tem a minha namorada na janela
Tem as ruas gritando de luzes e movimentos
Tem meu amor tão lento
Tem o mundo batendo na minha memória
Tem caminho pro trabalho.

Do outro lado tem outras vidas vivendo da minha vida
Tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas
Tem minha noiva definitiva me esperando com flores na mão
Tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.

Murilo Mendes, RJ, 1994.

Caminhando...

Tudo bem, vamos continuar...
Atendendo a pedidos (rsrs) vamos dar andamento nessa joça, hehe...

Resolvi, depois de muita falta de vergonha, postar uns escritos meus. Pois é, hoje vou começar com minha primeira poesia (cuti-cuti), e com outras que gosto mas não são minhas...

> O quintal do meu quarto e o quarto do meu quintal

No meu quarto têm uma janela,
já te conto o que há depois dela,
dentro há luzes, flores, canções
memórias de diversões
alguns vários momentos de complicações
e imagens de muitas uniões.

Já fora da minha janela tem um quintal
e nele há um varal.
Lá eu ponho e disponho qualidades,
desponho mais defeitos, na verdade.

No meu quarto tudo tem que ser limpo
e essa é a qualidade principal,
pois o meu quintal, como meu quarto,
é repleto de luzes, flores, canções,
simbolos, lutas, uniões,
coros, vidas, corações,
e alguns poucos limões.

Essa eu fiz com 14 anos... Depois dela descobri que não tenho talento pra poesia.